Histórias
Vaticano publica mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial dos Pobres
A Sala de Imprensa da Santa Sé publicou no passado domingo, dia 14, a mensagem do Papa Leão XIV para a décima edição do Dia Mundial dos Pobres, que se celebrará no próximo dia 15 de novembro, sob o lema “O Senhor é o refúgio dos pobres”.
Leão XIV denuncia a “corrupção arrogante” que gera injustiça social e coloca as pessoas “algumas acima de outras em nome do domínio e da opressão”. Ele incentiva a ouvir os necessitados, em vez de apenas falar sobre eles. A mensagem traz a data de 13 de junho, memória de Santo Antônio de Pádua, padroeiro dos pobres.
Leia a mensagem abaixo.
MENSAGEM DO SANTO PADRE LEON 14.6)
1. O Senhor é o refúgio dos pobres (cf. Sl 14,6). As palavras do Salmista sugerem o caminho que somos chamados a percorrer em vista do X Dia Mundial dos Pobres. Mais uma vez é necessário voltar à Palavra de Deus para verificar a importância que os pobres têm na vida da Igreja. A expressão do salmo torna-se critério de julgamento da existência cristã porque revela o rosto de Deus e reconhece a pobreza humana. Com efeito, num momento histórico dramático, como a destruição do templo de Jerusalém, o povo sentiu-se privado da presença de Deus e viveu uma miséria material e moral sem precedentes.
Esta Palavra é apresentada a cada geração em toda a sua atualidade. Desde o início mostra a contradição em que ainda hoje cai muitas vezes. A primeira confirmação é esta: «O tolo diz para si mesmo: “Deus não existe”. Eles se corromperam cometendo execrações, não há quem faça o bem” (Sl 14,1). Isso realça o contraste entre aqueles que se comportam com sabedoria e aqueles que, por outro lado, arrastam suas vidas como se não houvesse nada acima deles. Podemos ver, infelizmente, quão difundida é hoje uma injustiça social que brota da corrupção arrogante, tão deplorável quanto discriminatória. A perda do sentido de transcendência na vida cotidiana não é mais tanto um problema. negação teórica da existência de Deus; antes, manifesta-se na falta de consideração de Sua bondade e misericórdia para a construção da justiça pessoal e social.
Os primeiros a sofrer suas consequências são os pobres, que, não por acaso, aumentam em muitas sociedades. só pessoas individuais, mas povos inteiros se encontram nesta condição. As palavras do salmo ainda ressoam cheias de verdade: “Devoraram o meu povo como pão” (Sl 14,4).
2. ao homem não resta senão clamar a Deus (cf. Sl 34,7) e fazer chegar até Ele o seu lamento, com a certeza de ser ouvido porque Deus é fiel e rico de misericórdia. Também aqueles que são oprimidos, humilhados e indefesos crescem hoje na certeza de ter que se abandonar a Deus, carregados de confiança e de esperança. silenciosamente se torna realidade. Refugiar-se em Deus equivale a encontrar uma proteção verdadeira e segura, aquela que os poderosos não podem garantir e preferem negar.
O pobre, porém, sabe reconhecer o que é essencial mais do que os outros, porque vive mais como Cristo do que tudo, reconhece Deus como seu próprio refúgio, mesmo quando as circunstâncias parecem contradizê-lo, e está cheio de esperança pela sua justiça, que logo se manifesta. proteção do Altíssimo” (cf. Sl 91,1). Quem está aflito, quem sofre injustiças e é ofendido, quem sofre sofrimento e dor, quem está sozinho e privado do sentido da vida pode encontrar conforto e nova motivação no Senhor.
3. Ser refúgio não é apenas uma promessa, mas torna-se uma realidade na pessoa de Jesus Cristo. Deus coloca a sua morada entre nós com a encarnação do Filho, que faz o refúgio esperado, concreto e visível, Jesus Cristo é verdadeiramente o refúgio de Deus para os pobres. Através da sua obediência ao Pai, ele desce ao ponto mais baixo, onde se encontram os últimos e oferece refúgio seguro a cada um: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). os marginalizados: despojados de uma palavra e de um rosto, além do pão, que encontrem o Filho de Deus, que se torna próximo de todos sem descuidar de ninguém e que restituam a todos a dignidade de Deus. Trabalho, educação, alimentação, saúde, abre-se um novo caminho: a partilha como expressão do Reino de Deus (cf. Mt 5,3). tantos que hoje estão à porta e permanecem invisíveis para aqueles que permanecem trancados dentro dos seus próprios muros: «Ele calou-se sobre o nome do rico e indicou o do mendigo. Deus silenciou o nome tão elogiado do primeiro. ser como o rico? Não se deixe enganar: ouça qual foi o fim de ambos e observe qual é a escolha errada» (Sermão 33A, 4).
Como recordei na Exortação Apostólica Dilexi te, «Deus mostra predileção pelos pobres, a palavra de esperança e libertação do Senhor é dirigida a eles e, portanto, mesmo na condição de pobreza ou fraqueza, ninguém deve se sentir abandonado. de Cristo, deve ser a Igreja das Bem-Aventuranças, uma Igreja que dá espaço aos pequenos e caminha na pobreza com os pobres, um lugar onde os pobres têm um lugar privilegiado» (n. 21).
Algumas questões surgem inevitavelmente, que neste X Dia Mundial dos Pobres temos a urgência de fazer ressoar nas nossas mentes e nos nossos corações. Somos sinal de um Deus que é refúgio para os pobres? Estamos conscientes da nossa pobreza e preferimos-na à riqueza injusta? outras questões exigem um sério exame de consciência, para verificar o quanto ainda somos chamados a ser a favor dos pobres e da sua libertação. Veremos então que os próprios pobres se tornam um refúgio para os outros. A experiência da pobreza torna-nos particularmente sensíveis a uma solidariedade renovada diante dos desafios.
O amor de Cristo torna-nos, com efeito, participantes da vida de amor de Deus. entre quem ajuda e quem é assistido, entre quem parece dar e quem parece receber, entre quem se apresenta como pobre e quem sente necessidade de oferecer tempo, competências e ajuda. Somos a Igreja do Senhor, uma Igreja dos pobres, todos preciosos, todos participantes, cada um portador de uma única Palavra de Deus. Cada um é um presente para os outros» (Homilia, 17 de agosto de 2025).
5. O oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis leva-nos a recordar como, chegando a Roma como peregrino ao túmulo do Apóstolo Pedro, foi movido pela compaixão pelos mendigos. Para compreender e viver o seu sofrimento, tirou as próprias roupas e trocou-as pelas roupas esfarrapadas de um deles, sentando-se para mendigar e passando o dia inteiro entre os pobres com alegria de espírito (cf. Fontes Franciscanas, 1405-1406). Queremos testemunhar que também hoje é possível experimentar a mesma alegria colocando-se no lugar dos pobres e ouvindo-os, em vez de apenas falar deles. Quem tem Deus como refúgio é livre para tomar decisões proféticas, que testemunham como tudo pode ser repensado desde baixo, na humildade e na fraternidade que, só eles, reparam um mundo ferido pela arrogância.
Confio que este X Dia Mundial dos Pobrespode constituir uma etapa significativa na redescoberta do rosto de tantos irmãos e irmãs que procuram refúgio em Deus e desejam sentir-se em casa nas nossas comunidades. Mantenhamos viva a obediência à Palavra de Deus, que provoca a conversão do coração. A Virgem Maria, que na carne crucificada do Filho contemplou o amor de Deus que enche de bens os famintos e manda embora de mãos vazias os ricos (cf. Lc 1,53), interceda por nós.
Vaticano, 13 de junho de 2026, memória de Santo Antônio de Pádua.
LEÃO PP. XIV