Histórias
Cardeal Spengler: “A Igreja é uma reserva ética diante dos desafios da América Latina”
SANTO DOMINGO, República Dominicana – No âmbito do IV Encontro de Cooperação Sinodal para a América Latina e o Caribe, o Arcebispo de Porto Alegre, Brasil e presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (CELAM), o Cardeal Jaime Spengler, participou do painel inaugural compartilhando a situação da Igreja e da Cooperação na América Latina e no Caribe. A sua intervenção destacou a necessidade de uma leitura atenta dos “sinais dos tempos” numa região atravessada por uma encruzilhada histórica.
Um continente numa encruzilhada institucional e económica
Para o Cardeal Spengler, a América Latina atravessa uma encruzilhada histórica marcada pela confluência de tensões globais e dinâmicas regionais complexas. Segundo explicou, a falta de estruturas sólidas impede a transformação da riqueza em desenvolvimento humano, deixando o campo aberto a ameaças como a corrupção, o tráfico de drogas, a fragilidade dos sistemas democráticos e o impacto na casa comum devido às alterações climáticas.
Neste contexto, destacou como a atual reconfiguração geopolítica impacta diretamente o continente. “Se por um lado, a reconfiguração geopolítica permite-nos aproveitar economicamente as oportunidades abertas pela procura exponencial de minerais críticos associados à transição energética, dado que a região possui importantes reservas destes minerais, por outro lado, enfrenta o regresso de uma política externa agressiva dos EUA, que procura restaurar a preeminência de Washington no hemisfério através de uma coligação militar e ideológica selectiva, em claro contraponto à crescente influência económica da China na região”, observou.
O ponto central da reflexão do presidente do CELAM girou em torno do papel estratégico da fé na reconstrução do tecido social. Segundo o cardeal, a Igreja Católica continua a ser uma “reserva ética respeitada no continente”, uma autoridade moral que, num cenário de crise das democracias e de escândalos institucionais, tem o dever de levantar a voz. econômico e demográfico —particularmente Brasil e México— para articular uma visão alternativa de integração regional que seja pragmática, baseada no respeito à soberania e focada na resolução de problemas estruturais que perpetuam o subdesenvolvimento e a desigualdade.”.
Sob esta premissa, a cooperação sinodal é apresentada como o motor de uma visão transformadora destinada a mitigar desigualdades extremas. disse Spengler, ligando assim a missão da Igreja e das agências de ajuda com a necessidade imperiosa de fortalecer as instituições locais.
O arcebispo de Porto Alegre concluiu a sua intervenção com um apelo à autonomia regional, alertando que, sem uma mudança de rumo, a América Latina continuará a ser uma competição por poderes externos. redefinir a sua estratégia de desenvolvimento, sendo claro sobre a sua localização geográfica e a sua posição hierárquica dentro do “hemisfério ocidental” [...] Este reposicionamento, no entanto, não pode ignorar a nova realidade geopolítica: a presença chinesa é estrutural, a crise do neoliberalismo abriu espaço para alternativas progressistas, e a polarização interna da região reflete, em última análise, as contradições não resolvidas do seu desenvolvimento histórico. os povos e governos do continente terão pouco espaço para acção autónoma. Esta visão desafia a cooperação sinodal a ser não apenas um mecanismo de ajuda, mas um espaço de pensamento e acção que acompanhe a região na superação das suas dívidas históricas e na construção de um futuro mais justo e solidário.