Histórias
Cardeal Michael Czerny: “A cooperação sinodal exige que a Igreja abandone as aparências e ouça o grito das bases”
SANTO DOMINGO, República Dominicana – O IV Encontro de Cooperação Sinodal para a América Latina e o Caribe, que reúne em Santo Domingo as principais agências humanitárias e líderes da Igreja latino-americana para redefinir estratégias de assistência na região, é uma oportunidade para ver a realidade e fazer um discernimento profético diante dos desafios da região. Durante o painel inaugural sobre a situação da Igreja, o Cardeal Michael Czerny, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, desafiou os participantes a transcender a gestão burocrática para abraçar uma "universalidade na comunhão" que responda às dores reais das pessoas. situação. Segundo o cardeal, o maior perigo para as organizações de cooperação é o risco de se deixarem levar por uma percepção superficial da realidade, vivendo no que chamou de “aparências”.
Estamos cada vez mais imersos em um mundo eletrônico, um mundo de imagens e tenho um pouco de medo de que estejamos vivendo o que Platão chamou de aparências, ou seja, sem chegar ao fundo do poço e sem especificar para onde vão as coisas e para onde vão os nossos esforços. Centre for Faith and Social Justice, em Toronto, com um exercício chamado Naming the Moment.
A análise da situação, como destacou Czerny, não é um exercício acadêmico, mas uma necessidade espiritual para captar os sinais dos tempos, buscando caminhos mais seguros no serviço aos pobres e à Igreja. O exercício é uma oportunidade para não oferecer soluções para problemas que já não existem ou que não são prioridade daqueles que mais sofrem, disse Czerny, instando as agências a manterem listas de desafios "abertas e dinâmicas". Cardeal.
Enfrentar o trabalho de desenvolvimento face a múltiplos problemas
Num exercício de profunda honestidade institucional, o Cardeal Michael Czerny exortou as agências e organismos da Igreja a resistirem à tentação de declarar "prioridades da moda" que fechem os olhos à realidade. O prefeito defendeu a necessidade de manter um “catálogo aberto” de problemas para se surpreender com os desafios que as pessoas realmente enfrentam no seu dia a dia, depois de fazer uma lista de vários temas e acrescentar no final a categoria que considera mais importante: “etcetera, etcetera, etcetera”, num tom muito próximo e informal, despertando risos nos participantes.
"Devemos resistir à tentação de declarar duas ou três questões como totalmente prioritárias e encorajar-nos a perceber os desafios que o nosso povo realmente enfrenta. Em Roma, fazemos um esforço para não convencer os outros sobre quais questões devem enfrentar, mas para nos permitirmos estar abertos à surpresa de problemas que não estão nas nossas listas, mas são vitais para as pessoas", explicou o cardeal.
Neste quadro, Czerny fez uma autocrítica após quase 50 anos de trabalho no campo do desenvolvimento, apontando dois fenómenos que, na sua opinião, foram autorizados a crescer até se tornarem quase incontroláveis porque não lhes foi dada atenção quando tinham proporções endereçáveis. O primeiro deles é o tráfico de drogas, que ele descreveu como um poder de dimensões devastadoras.
"Hoje o tráfico de drogas tem uma força e um impacto incalculáveis na vida de muitas pessoas. Eu me pergunto: o que estávamos pensando há 20 ou 30 anos? Por que não levamos isso a sério? A força do crime organizado hoje é de um poder quase indescritível e imensurável, e tem um impacto horrível nas comunidades. Talvez não tenha sido em nossos lista de questões e agora parece quase impossível combatê-la”, lamentou.
Com este apelo, Czerny convidou os participantes do encontro a uma vigilância profética que não ignora os problemas estruturais enquanto ainda podem ser transformados.
Universalidade face à globalização
O Cardeal rejeitou o termo “global” quando aplicado à Igreja, que considera “intolerável”, argumentando que a globalização tende a padronizar e excluir. Pelo contrário, defendeu, manifesta-se segundo um princípio diferente, “pois a Igreja subsiste em cada Igreja particular e precisamente assim torna visível uma forma de unidade que não se realiza contra o múltiplo, mas dentro dele”.
Esta não é uma uniformidade imposta de cima, mas sim um reconhecimento da riqueza das diferenças locais, sem dissolver as faces concretas que a Igreja toma forma na história, refletiu Czerny.
O universal não coincide com o que nivela as diferenças, mas com o que as guarda e as ordena para uma comunhão mais profunda, mostrando que a unidade máxima não é o que uniformiza, mas o que torna possível a pertença recíproca sem perda de identidade.
A intervenção de Czerny concluiu com um apelo às agências de cooperação para se assumirem como aliadas de processos de longo prazo, inspiradas na doutrina social dos Papas Francisco e Leo
Ao reafirmar que o desenvolvimento humano integral só é possível quando o protagonismo é devolvido ao povo, sua mensagem definiu o rumo do encontro: uma cooperação que não tenha medo de tocar as feridas de um continente que clama por justiça.