Histórias
Documento das igrejas do Sul Global pede conversão ecológica, transformação e resistência a falsas soluções
Dois marcos importantes marcam o caminho da Igreja rumo à COP 30 nesta terça-feira, 1º de julho. O primeiro deles diz respeito à apresentação do documento “Um apelo à justiça climática e à Casa Comum: conversão ecológica, transformação e resistência a falsas soluções” ao Papa Leão XIV. Da audiência realizada no Palácio Apostólico estiveram presentes os cardeais Jaime Spengler, presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (Celam); Felipe Neri Ferrao, presidente da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas (FABC); e Fridolin Ambongo Besungu, presidente do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (Secam).
A segunda é a conferência de imprensa em que os três cardeais acompanhados pela Dra. Emilce Cuda, secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina (PCAL), apresentaram o conteúdo do documento aos meios de comunicação e ao mundo inteiro. Elaborado pelas três confederações com o apoio de especialistas desde 2024, o documento procura abordar a crise climática numa perspectiva pastoral e profética. A Cáritas América Latina e Caribe participou ativamente de todo esse processo, por meio de sua coordenação de defesa de direitos.
Clique para baixar o documento em espanhol, português e inglês.
Um grito pastoral
Durante a conferência de imprensa, os cardeais enfatizaram o seu papel. “Não estamos aqui como especialistas ou políticos, mas como pastores; pedimos uma conversão do coração”, declararam.
Dr. Emilce Cuda agradeceu aos cardeais pelos seus esforços, destacando que eles, tal como os Três Reis Magos, oferecem três presentes:
uma fé renovada em Deus e uma confiança firme na humanidade; o clamor por uma nova justiça ambiental como forma mais elevada de caridade; e a certeza de que a esperança não decepciona.
Cuda destacou que o PCAL assumiu esta iniciativa em resposta a um apelo do Papa Francisco em junho de 2024 para “construir pontes de reconciliação, de inclusão, de fraternidade”. A apresentação deste documento se soma a ações anteriores, como a campanha "A vida está por um fio", lançada em dezembro de 2024 para defender os líderes ambientais.
Anunciar com coragem e desmantelar falsas soluções
Consultado sobre a possível participação do Papa Leão XIV na COP 30 em Belém do Pará (Brasil), o Cardeal Jaime Spengler confirmou que solicitaram sua presença e que o governo brasileiro estendeu um prazo oficial convite.
O Cardeal Spengler sublinhou a importância de tomar decisões corajosas e de “anunciar profeticamente o que devemos fazer sem medo”. Destacou que o documento é o resultado de um “processo sinodal, de um discernimento espiritual e comunitário entre Igrejas irmãs em África, Ásia e América Latina e Caraíbas”, e foi utilizado nos diálogos bilaterais da Conferência de Bona como instrumento de defesa.
A mensagem é clara: “não há justiça climática sem conversão ecológica, e não há conversão ecológica sem resistência a falsas soluções”. Ele pediu "o desmantelamento de interesses sob nomes como 'capitalismo verde' e 'economia de transição'", que perpetuam as lógicas extrativistas.
Em seu discurso (na íntegra no final, clique para baixar o arquivo), Spengler mencionou as organizações católicas, incluindo CEAMA, Cáritas Internationalis, Cáritas América Latina e Caribe, Cáritas Brasil, REPAM, entre outras, que participaram do processo. Ele também destacou o importante caminho ecumênico realizado e um chamado à ação com a Christian Aid, ACT Alianza, a Federação Luterana Mundial e o Conselho Mundial de Igrejas, entre outros.
Queremos tornar pública a nossa gratidão às muitas pessoas que, de diferentes maneiras, colaboraram com esta iniciativa proativa antes da COP30.
Uma mensagem pastoral que exige uma mudança de coração
O Cardeal Felipe Neri expressou a esperança de incluir outras conferências episcopais neste apelo à justiça climática, embora, por enquanto, "os continentes do sul do mundo tenham empreendido esta jornada". Sublinhou que “a nossa mensagem hoje não é diplomática: é pastoral”, um apelo à consciência face a um sistema que ameaça a criação. Lamentou que a mineração “sem alma” persista em nome das “baterias verdes” e apelou à operacionalização do Fundo de Perdas e Danos. Insistiu na necessidade de reconhecer a sabedoria ancestral das comunidades e deter a expansão dos combustíveis fósseis.
Por sua vez, o cardeal Fridolin Ambongo Besungu celebrou a abertura do Papa Leão XIV às questões socioambientais, garantindo que o Pontífice siga a “mesma linha ecológica de Francisco”. “África não é um continente pobre. É um continente saqueado”, afirmou, carregando a voz de um povo vítima da “febre do lítio, do cobalto e do níquel”.
O Cardeal Ambongo propôs uma transformação que coloque no centro o cuidado da vida, a soberania dos povos indígenas e rurais e a defesa dos direitos das mulheres, dos migrantes climáticos e das novas gerações. E finalizou com uma declaração contundente: “o tempo da indiferença acabou”.
Convidamos você a assistir a coletiva de imprensa na íntegra e conhecer o conteúdo apresentado.